O Malabarista: os melhores artigos de Arnaldo Jabor

No cinema novo, eramos romanticos de Cuba

Tenho uma profunda saudade do Bar da Lider. Vocês me perguntarão: que diabo é o Bar da Lider? Eu respondo: o Bar da Lider era a minha juventude.

Lá, na rua Álvaro Ramos, em Botafogo, foi arquitetado o Cinema Novo. Era um botequim tímido em frente ao Laboratório Lider , onde revelávamos e nossos primeiros filmes. Tinha dois garçonzinhos: um espanhol quase anão e um cearense cafuso que se esbugalhavam para nós, os jovens e faladores
do Cinema Novo.

Hoje o bar virou uma ‘acrílica’ lanchonete. Mas, desse tempo mágico, ficaram as lembranças: as moscas no bico dos açucareiros, as cadeirinhas de madeira, os tampos de mármore, os chopes, os sanduiches de pernil, os ovos cozidos cor-de-rosa, o cafezinho em pé. E era ali, no meio desses insignificantes objetos brasileiros, que traçávamos os planos para conquistar o mundo. Os cineastas cariocas de hoje se reúnem em torno da Conspiração, uma empresa de jovens talentos. Esse nome descreveria bem o que fazíamos em 67: conspirávamos. Conspirávamos contra o ‘campo e contracampo’, conspirávamos contra os “travellings” desnecessários, contra o “happy end”, contra a fórmula narrativa do cinema americano e achávamos poeticamente que, se a língua de nossos filmes fosse diferente da língua oficial, estaríamos contribuindo para a salvação política do país. Claro, nossa câmera era um fuzil que, em vez de mandar balas, recolhia imagens para ‘libertá-las’ aos olhos dos espectadores. Achávamos que, mostrando a realidade brasileira, misteriosamente, contribuíamos para mudá-la. Não sabíamos ainda que havia também uma ‘realidade oficial’ que resistiria a cores e ao vivo, com efeitos especiais e som dolby, ao ataque guerrilheiro das metáforas pobres. Não sabíamos ainda da bruta violência de Hollywood com seu embargo a nossos filmes, como havia o embargo contra Fidel. Nós éramos os românticos de Cuba. Nossas câmeras eram pobres, nossos filmes preto e branco, nosso som precário e, no entanto, a fome de mostrar o olho do boi morto, o mandacaru podre, as mãos brutas dos camponeses, a classe media boçal, fazia-nos desprezar até o aperfeiçoamento técnico, numa espécie de mímica do cotidiano proletário. Transformamos nossas misérias em teoria, numa ‘arte povera’, onde a precariedade seria mais profunda que um ‘reacionário progresso audiovisual’. Lembro-me que o Glauber esbravejava contra a tecnologia; o doce baiano no seu radicalismo, ali, de chinelo dentro do bar, xingava os aparelhos modernos, sob o olhar perplexo do espanholzinho que servia chope. E nisso havia uma ingênua verdade, pois o cinema moderno perdeu a magia de antes, porque quanto mais se aperfeiçoam as maneiras de penetrar na ‘realidade’, mais distante ela fica. Explico. Quanto mais se fazem descobertas, mais fundo é o túnel do mistério. A máquina do mundo, quanto mais aberta, mais iluminada, fica mais vazia e misteriosa. A perfeição reprodutiva descreve bem o mundo, mas não o condensa em poesia. Hoje, é imensa a quantidade de imagens que invadem nossos olhos. Tantas são, que se anulam. Tanta é a exposição do mundo, que não vemos nada. Na época, a ‘estética da fome’ de Glauber transformava nossa fome em nossa riqueza. Nossos filmes eram metáforas deles mesmos; na sua precariedade morava um retrato do Brasil ao avesso. Daí, nossa esperança naqueles anos utópicos, dai nosso desprezo por dinheiro, pela caretice e pelo sucesso burguês; íamos aos festivais europeus como ‘pracinhas’, xingar os críticos franceses, atacar o ‘velho’ mundo decadente que, por sinal, se encantou conosco através do ‘Cahiers du Cinema’ e do ‘Positif’ e nos botava nas nuvens, culpados com nossa fulgurante miséria cheia de orgulho. Por isso, o Bar da Líder de noite parecia aquele barzinho do Van Gogh, jorrando luz, com estrelas enormes girando no céu de Botafogo. Éramos assim em 1967.

Com a invasão do primeiro mundo nos anos 70, estamos repletos de imagens muito mais velozes do que podemos processar.

E o Bar da Lider foi mudando. Mudou de dono, mudou as mesinhas de mármore para fórmica, mudou o balcão sujo para aço escovado, mudou o espanholzinho para uma maquina de fichinhas, a Lider mudou também daquela rua, sumiram os cineastas loucos, de cabelos revoltos e camisas de marinheiros. Mudou o Brasil, mudou o cinema, mudei eu, mudaram alguns cineastas da esquina da Lider para outra vida também não sabíamos do ‘embargo’ da morte.

Hoje, brasileiros me perguntam: “Quando vais voltar a fazer cinema?” E eu: “Sei lá, sei lá; o cinema ficou muito complicado, muito mercadológico.” Mas sempre me dá uma profunda saudade do ovo cor-de-rosa que o espanholzinho me servia, em cima de um pedacinho de papel de pão, num pires de louça rachada, com um saleiro sujo do lado. Havia ali naquela precariedade, naquela vitrininha com pastel e empadinha, havia, ali no açucareiro cheio de moscas, uma alegria selvagem que nunca mais senti na vida.

 

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